Crise no espirito santoA semana foi marcada pela grave crise no estado do Espírito Santo. Por qualquer ângulo que for analisado esse episódio, ali ninguém se salva, dos policiais ao governo. As autoridades do estado ficaram refém de uma minoria de policiais que brincavam de greve, com o respaldo dos próprios parentes, principalmente mulheres, para dizer que elas, como “minoria frágil”, não poderiam ser confrontadas ou afastadas na base da força. Além de irresponsável e covarde, o ato foi ilegal e durante uma semana a segurança da população foi “sequestrada” e o governo estadual acabou enredado na crise.

Quantas famílias estão nesse momento pranteando cerca de 138 mortos, em uma semana, registrados no estado? Quem pagará a vida dessas pessoas? A polícia militar do Espírito Santo? Ou seja, aqueles mais de 10 mil militares que são pagos para garantir a segurança do estado e abdicaram de sua missão, usando a pressão caos para obter aumento salarial, num momento em que todos os estados estão com sérios problemas de caixa.

O Espírito Santo, há duas semanas, apareceu na mídia como um dos poucos estados que teria feito o dever de casa, sem apresentar déficit, pagando os salários em dia. O estado seria um dos poucos a ter as finanças saneadas. Pois bem. Essa boa reputação foi arranhada, manchada por um grupo de militares que deveriam dar exemplo. Não cabe aqui analisar o mérito da reivindicação. Se o salário está defasado ou não. Evidencia-se nesse movimento as condições problemáticas em que se encontram as diversas polícias no Brasil. Salários baixos, falta de condições mínimas de trabalho e jornadas extenuantes, são regras na grande maioria das forças policiais brasileiras. Segundo admite o jornal O Estado de S. Paulo, "No caso específico das PMs, muitos dos praças sofrem ainda com o abuso constante de seus superiores respaldados por códigos de disciplina internos completamente anacrônicos."

O problema pontual do Espírito Santo tem que ser discutido em outro âmbito. Como militares responsáveis pela segurança, não deveriam abdicar do dever e inventar uma forma canhestra e perigosa, usando familiares, para fingir que estavam impedidos de sair dos quartéis. Além do precedente extremamente pernicioso, com perspectivas de desdobramento para outros estados, como parece acontecer no Rio de Janeiro, é uma forma radical e inconcebível de reivindicação.

O fato de a greve ser ilegal, não inibiu os militares de fazer de conta que estavam ilhados nos quartéis. Como tem acontecido em outros conflitos no País, como invasões de prédios públicos, de universidades, de escolas, greves em setores-chave como educação e saúde, as decisões judiciais não são cumpridas. E daí? Ninguém ousou confrontar as mulheres que ocuparam a frente dos quartéis, evitando o uso da força, para exigir o cumprimento da Lei. As cenas, gravadas, de um comandante de Cariacica, apelando com veemência para os comandados irem para a rua, atender aos reclamos da população, é patética. Evoca o comandante que não comanda. Parecia aquele professor que perdeu o controle da turma, numa grande bagunça, e pede para os alunos: “gente, por favor, fiquem quietos que eu quero dar aula”, cena cada vez mais comum nas nossas escolas, ocupadas por "alunos" e militantes e onde "estudar" parece ser apenas uma opção e não o objetivo principal. O que impressiona é ser uma cena inusitada numa unidade militar, onde a obediência hierárquica e a rigidez disciplinar são mantras.

Nessa cadeia de erros, falhou o serviço de segurança e informação do estado, ao não detectar a tempo esse movimento e sua gravidade. Sob qualquer aspecto que analisemos, um estado ficar refém da própria polícia (ou de qualquer outra classe de trabalhador) e, de mãos atadas, não conseguir impedir a violência e não fazer os policiais cumprirem o dever é algo quase inédito no País. A solução de apelar para as Forças Armadas e a Guarda Nacional é extrema. Não deveria, como parece acontecer, virar rotina quando o estado é incapaz de conter a própria crise. Aconteceu no Amazonas, Rio Grande do Norte, em Porto Alegre, e Roraima. O custo da operação de deslocar 3 mil militares para o estado é extremamente alto para um país em crise fiscal. As três forças militares e a Guarda Nacional não podem se transformar na panaceia para conter crises no País.

O bloqueio de batalhões feito por familiares de policiais militares, impedindo a saída da corporação, fez com que o Espírito Santo chegasse à "mais grave crise de Segurança Pública do momento no Brasil", afirmou o coronel José Vicente da Silva, ex-secretário nacional da Segurança (2002) ao portal Globo.com. O especialista avaliou que a situação é pior do que a ocorrida na região Norte do país durante as rebeliões no sistema prisional, que marcaram o início de 2017.

O comparativo, segundo ele, diz respeito à má gestão do Executivo estadual em ambas as situações. “O que nós tivemos no Rio Grande do Norte foi uma irresponsabilidade do governo do estado. De certa forma aconteceu como no Espírito Santo, o governo não cuidou e virou uma panela de pressão. A primeira estava limitada ao território do presídio, a do Espírito Santo coloca em risco toda a sociedade", concluiu o ex-secretário.

A crise se agravou porque o governo demorou a negociar e encontrar uma solução. Até o governo federal foi lento em perceber a gravidade da crise capixaba. Nas entrevistas do secretário de segurança do estado e do próprio governador interino, a tese do discurso podia estar correta, funciona até certo ponto, apenas como paliativo, mas na prática as autoridades estaduais não conseguiam dar a resposta de conter a crise e evitar a violência e os saques com a presteza cobrada pela população. Ante o potencial de agravamento, essa crise deveria ter sido prevista, detectada; e o governo se preparado para enfrentá-la, quem sabe negociando antes com as lideranças do movimento. No campo da gestão de crises, faltou ao governo constatar a ameaça e preventivamente se preparar para esse cenário negativo. Mais uma vez, como na crise prisional, as atitudes foram reativas.

Não são as mulheres que deram entrevistas (despreparadas, aliás, como porta-vozes) que lideraram esse movimento. Elas serviram como cobaias, numa operação extremamente arriscada e irresponsável. Por trás, certamente, desse movimento radical, como sempre acontece, está o sindicato da categoria. Muito ágil em bolar estratégias de guerrilha, desde que os próprios interesses se sobreponham aos da maioria. Não importa quantos mortos a “aventura” possa provocar, como vem provocando. O custo dessa operação deveria ser dividido também pelo sindicato e associações da categoria, disfarçados sob o resguardo do acampamento das mulheres dos militares.

Como disse o jornalista José Casado, em comentário no jornal "O Globo", "A sedição resultou num choque aberto da sociedade com o corporativismo político-sindical, com repúdio coletivo à rebelião, inclusive em manifestações à frente do QG da PM."

Foto: EPA

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